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Os segredos da Praia de Mira

A meteorologia não tem estado de feição para os portugueses estenderem o corpo nos imensos areais das suas praias. Muito menos para mergulhos no mar. Mas, faça chuva ou sol, a época balnear é declarada aberta numa grande parte das praias lusas na próxima quarta-feira. São 558 as certificadas e espalhadas pelos 850 quilómetros da costa atlântica e junto a barragens ou em rios. Destas, 314 praias ostentam a Bandeira Azul, sinal de boa qualidade ambiental. Mas há uma mais azul que todas as outras. A única em Portugal e uma das poucas no mundo que há 30 anos consecutivos conservam este galardão. Bem-vindos à bela Praia de Mira.

Situada no litoral centro, no distrito de Coimbra e concelho de Mira, a primeira surpresa que a Praia de Mira oferece aos seus visitantes é a Barrinha. Uma imensa lagoa rodeada de casario, áreas verdes e recreio para a miudagem, que por ali pode navegar em coloridos barcos disfarçados de animais.

Mas só uns metros mais à frente, junto à velhinha capela de Nossa Senhora da Conceição (1842) e da enorme estátua que homenageia os pescadores locais, a Praia de Mira mostra o seu tesouro: um imenso areal que se estende por mais de sete quilómetros e com dezenas de metros de largura antes de tocar o Atlântico, que ali chega com ondas fortes.

A primeira com wi-fi grátis

Os bares e restaurantes de apoio de praia espalhados pelo início do areal não ferem a beleza do local. Há várias entradas para pessoas com incapacidades físicas, muitos chuveiros, casas de banho, caixotes do lixo com fartura e, acima de tudo, um areal e zonas circundantes impecavelmente limpos. No ano passado, tornou-se na primeira praia portuguesa com wi-fi grátis. Já neste Verão terá mais uma novidade: será diariamente revelado aos veraneantes o índice de radiação ultravioleta.

É uma praia enorme que num domingo de Verão recebe “entre 20 e 30 mil pessoas”, dez vezes mais que a população local (três mil pessoas), e que faz com que o turismo seja “de longe a principal actividade económica do concelho”, como explicou ao PÚBLICO Raul Almeida, presidente da Câmara de Mira.

Para o autarca, eleito pelo PSD em 2013, o segredo para a praia manter a Bandeira Azul há 30 anos está nas pessoas. “Das gentes da praia que cuidam dela, fazendo questão de a ter sempre limpa, aos funcionários da junta [de freguesia] e da câmara. [O segredo] Está nos trabalhos de manutenção e limpeza do areal, que é feito ao longo de todo o ano.”

A Praia de Mira é terra de pescadores. Homens que se orgulham de manter a arte centenária de “pescar ao cerco e alar para terra”, mais recentemente baptizada de arte-xávega. Uma arte em que os barcos, localmente chamados “meia-lua”, saem da praia vencendo as ondas e soltando depois ao largo uma rede que na água ganha um forma cónica, cercando cardumes de peixe. As embarcações regressam a terra e, mais tarde, a rede é puxada para a praia por tractores

A principal preocupação da autarquia vai para a Barrinha. A lagoa foi há tempos invadida por jacintos-de-água, uma espécie invasora com consequências nefastas para fauna e flora locais e que está a causar o desassoreamento do fundo. Raul Almeida revela que já foram provisionados um milhão de euros para obras na Barrinha, uma parte via fundos comunitários, e que estas “avançam assim que estiver concluído o estudo de impacto ambiental”.

Não há melhor praia que esta

A Praia de Mira é terra de pescadores. É a pesca que mexe com a vila ao longo de todo o ano. Homens que se orgulham de manter a arte centenária de “pescar ao cerco e alar para terra”, mais recentemente baptizada de arte-xávega. Uma arte em que os barcos, localmente chamados “meia-lua”, saem da praia vencendo as ondas e soltando depois ao largo uma rede que na água ganha um forma cónica, cercando cardumes de peixe. As embarcações regressam a terra e, mais tarde, a rede é puxada para a praia por tractores.

Na manhã da passada terça-feira, os barcos saíram para o mar pelas 7h. Pouco depois das 10h, junto à lota, vários cabazes de carapau miúdo e graúdo eram comercializados.

Para os pescadores que por ali andam, o segredo do sucesso da praia “é o bom ambiente”. “Aqui não há poluição, é tudo limpo. Não há melhor praia que esta”, diz Manuel dos Santos, um velho pescador de 76 anos já reformado.

O mestre Manuel Gabriel, 76 anos de vida e 40 de mar, junta-se à conversa. “Vou-lhe dizer uma coisa: não há mar mais limpo no mundo que este. Aqui não chega poluição nenhuma. Olhe que eu sei do que falo.”

E sabe. Manuel Gabriel andou ainda miúdo na praia na arte-xávega, “no tempo em que era ainda a força dos homens e das juntas de bois que puxavam as redes para a praia”, e aos 17 foi para o mar alto. Andou na Terra Nova e na Gronelândia na pesca do bacalhau, andou pelas traineiras, pela pesca da pescada no Cabo da Boa Esperança, pelos Açores e Madeira, no cerco do atum, e no Senegal ao camarão. Reformou-se em 1997. A sua história está contada no livro Atrevimento de um pescador, que ofereceu ao PÚBLICO.

“Andei pelos mares por onde andaram os descobridores portugueses, mas não há mar mais lindo e limpo do que este”, assegura o velho “lobo-do-mar”, apontando para a praia atlântica.

Para Manuel Gabriel, há outro segredo para o sucesso da Praia de Mira: “As suas gentes.” “Aqueles que partem para o mar mas nunca esquecem a sua terra. Um terra amada por todos, que fazem questão dela cuidarem, que sabem receber quem a visita e que não esquecem o seu passado”, afirma.

Faz questão que os jornalistas visitem um espaço junto à lota que um cartaz anuncia como sendo de “Memória de terra e mar”. Os dois cuidadores do local aparecem pouco depois. João Facão, 80 anos, e Aperino Marques Gil, 78 anos, são também dois antigos pescadores de alto mar reformados e o que vão revelar é um trabalho extraordinário.

Estes dois pescadores, apoiados por um terceiro, construíram uma réplica de como era a principal rua da Praia de Mira, hoje a marginal, nos anos 40 do século passado. Tudo de memória, sem uso de qualquer base documental ou fotográfica. Mais de 50 casas, tudo à escala, na sua maioria os tradicionais palheiros — habitações tradicionais construídas com ripas de madeira —, as poucas casas de alvenaria “dos mais abastados”, os barcos, os apoios à pesca, a capelinha. À porta de cada casa há uma legenda em papel que revela quem nelas habitou entre os anos 1940 e 1950.

Mas não se ficaram por aqui: construíram também réplicas de todas as igrejas e postos florestais do concelho de Mira e uma réplica de como os barcos eram retirados do mar nos anos 40. Falam com carinho da sua obra, inaugurada em 2009, “que é visitada por centenas de turistas todos os anos”.

“Praia de Mira foi sempre um local esquecido pelos governantes. Uma terra pobre deixada ao abandono. Só há cerca de mais ou menos 20 anos, quando os turistas descobriram as suas belezas naturais, é que se começou a olhar para aqui. Isto é uma obra que mostra a Praia de Mira esquecida e é uma homenagem às suas gentes”, diz Aperino Gil.

Esse esquecimento a que dizem que a vila foi vetada teve só uma vantagem, segundo João Facão: “Não a estragaram como estragaram outras praias. Por isso, ainda hoje temos bom ambiente, bom mar, bom areal. Por isso somos a única praia com Bandeira Azul há 30 anos.”

A época balnear na Praia de Mira arranca no dia 16 de Junho. Nesse dia será içada a 30.ª Bandeira Azul e o presidente da câmara promete inaugurar um monumento comemorativo do que diz ser “um momento histórico”.

Fonte: Publico