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No estuário do Sado há regras de ouro para assistir à festa

Ao leme do Catarina I, Jorge Pina abranda a marcha. Aproxima-se das três embarcações apinhadas de gente que já estão paradas, ao ralenti, no meio do canal do Sado. De um lado o areal da Península de Tróia, do outro a praia do Portinho da Arrábida. Pina posiciona o barco de fibra a fechar o círculo de espectadores. No meio, divididos em grupos, os golfinhos já estão a dar espectáculo. Atentos às barbatanas, avistamos o Cocas, o pequeno Luki com a mãe Moisés, a Azul e a Raiz. Mas há mais.

No Sado não há hora marcada para a festa, é chegar e assistir: os roazes-corvineiros (Tursiops truncatus) que habitam no estuário até parecem pular de alegria quando estão a ser observados. “São muito sociáveis e curiosos”, confirma Pina, que os conhece há 15 anos. Mas também se zangam se a plateia abusar da sorte: batem repetidamente com a barbatana caudal na superfície da água ou dão mergulhos prolongados, como que a dizer que o recreio acabou. “Eles percebem se nós sabemos o que estamos a fazer.”

O roaz-corvineiro é comum na costa portuguesa mas a comunidade do Sado, actualmente com 27 elementos, é a única residente num estuário no país e uma das poucas na Europa. Essa característica facilita os avistamentos, mas durante a época balnear, quando há mais barcos de recreio a circular e disparam as visitas turísticas, também aumenta a pressão sobre os animais, já fragilizados por outras ameaças como a poluição ou a pesca. A população, que chegou a rondar os 40 animais em 1986, tem diminuído, embora o saldo dos últimos cinco anos seja positivo: morreram três adultos mas nasceram oito crias. Uma acabou por morrer com poucas semanas de vida: o Sapal, nascido em Agosto de 2013, logo se tornou o centro das atenções dos visitantes. Os biólogos não descartam a hipótese de isso ter contribuído para o desfecho trágico.

“No pico do Verão rapidamente se juntam aqui 10 ou 15 embarcações” à volta de um grupo, diz Jorge Pina, da empresa Aquamaster (uma das nove marítimo-turísticas licenciadas na zona para a observação de cetáceos). O problema é que nem todas respeitam as regras: por exemplo, não se pode perseguir ou tocar nos animais e, quando se aproximam, as embarcações não devem chegar a menos de 30 metros dos roazes.

“O problema não está tanto nas marítimo-turísticas”, diz Ana Cristina Falcão, do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF), que monitoriza a comunidade do Sado. Os maiores prevaricadores são os condutores dos barcos de recreio, sobretudo os forasteiros. “Muitos nem sequer sabem que aqui há golfinhos”, nota a bióloga, admitindo que a má conduta será, muitas vezes, por desconhecimento das regras.

Para evitar situações que perturbem os animais foi lançada a campanha “Proteger os Golfinhos”, financiada em 12 mil euros pela Tróia Natura (sociedade detida pela Sonae Turismo, do grupo Sonae, proprietário do PÚBLICO), parceira do ICNF. Durante o Verão, de quarta-feira a domingo, dois homens fazem-se ao rio num bote semi-rígido e abordam as embarcações, entregando-lhes o código de conduta e alertando para comportamentos errados. A campanha deste ano termina ESTE domingo, com mais de 300 panfletos entregues.

“Achamos que uma das formas de proteger os valores naturais é divulgá-los”, diz João Madeira, da Tróia Natura. Mas há outras. Por exemplo, o regulamento da marina de Tróia permite recusar a entrada de embarcações que tenham comportamentos agressivos para com os golfinhos. “Até agora não foi necessário fazê-lo”, diz o responsável.

No ano passado foram abordadas 351 embarcações. O relatório da campanha indica que as principais falhas detectadas são o desrespeito pelo tempo máximo de observação (30 minutos) e pelo número máximo de barcos em observação, bem como pela norma que atribui prioridade às marítimo-turísticas.

Estas acções de sensibilização estão previstas no Plano de Acção para a Salvaguarda e Monitorização da População de Roazes do Estuário do Sado, criado em 2009. “Muitas das acções já foram concretizadas mas ainda há muito por fazer”, reconhece Ana Cristina Falcão. Por exemplo, estava prevista a criação de um centro interpretativo sobre o roaz-corvineiro mas ainda não se construiu. Com o apoio da Tróia Natura, uma equipa da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa está a avaliar a execução do plano. Os primeiros resultados deverão ser conhecidos em Outubro.

A última viagem do Asa
Poderá um nome ditar o destino de quem o recebe? Terá sido isso o que aconteceu ao Asa, naquela manhã quente de 7 de Abril de 1999, quando ficou preso no lodo no Esteiro do Carvão, num canal estreito do estuário do Sado? Nem o pescador que deu o alerta, nem os biólogos e os bombeiros que se juntaram para o salvar – munidos de baldes e tábuas para improvisar uma represa artificial e manter o animal molhado até à mudança das marés, que tardavam em subir – imaginavam que o Asa iria voar naquela tarde. Mas aconteceu: colocado numa maca, o roaz de quatro metros e cerca de 600 quilos foi içado por um helicóptero da Força Aérea, sob o olhar angustiado de dezenas de pessoas em terra, e levado sobre as águas do rio até ser largado numa zona mais profunda, onde pôde voltar a nadar.

O Asa, assim baptizado muito antes do acidente por causa da inclinação acentuada da barbatana dorsal, foi um dos primeiros golfinhos identificados no Sado, em 1984, já adulto. Os biólogos da Reserva Natural acreditam que teria cerca de 40 anos quando morreu, na semana passada. Era um dos mais velhos do grupo. “Não foi uma surpresa. Já se tinha isolado e fazia mergulhos prolongados, parecia desorientado”, descreve Ana Cristina Falcão. Foi encontrado a boiar, de barriga para cima, junto às instalações da Lisnave em Setúbal. Terá morrido “de velhice”, segundo a bióloga.

Depois de mais uma operação difícil para remover o corpo, o Asa fez a última viagem para o cemitério dos golfinhos do Sado, na Herdade das Mouriscas (próxima do local onde arrojou há 16 anos), propriedade do ICNF. Foi fazer companhia ao Manaia, que morreu no ano passado.

Fonte: Publico