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Miradouro: Ponta dos Corvos

A beleza do estuário do Tejo transforma todas as cidades e vilas em seu redor em pontos de vista e em miradouros sempre extraordinários.

A cor desta imensa superfície de água, deste lago de margens recortadas, vai reflectindo a cor do céu e a permanente mudança aumenta ainda a sua beleza e toca profundamente nas nossas emoções. Lisboa e Almada dispensam qualquer arquitectura icónica porque o seu verdadeiro ícone é o estuário do Tejo, inatingível na sua raridade e beleza.

A história de Portugal passa também pelo estuário do Tejo. Daqui saíram as caravelas que abriram os mares em redor dos continentes, as naus para comerciar, as gentes para a aventura da descoberta e para a busca da riqueza. Foi aqui também que chegaram os que com bom sucesso voltaram com notícias, riqueza, informação e novidades. Pela sua beleza, pela sua densa história e pela originalidade da sua forma geológica, há muito que o estuário do Tejo se devia ter candidatado à lista do Património Mundial.

No entanto, quem vive em Lisboa e goza da vista para o estuário do Tejo mal conhece a margem sul onde durante o século XX se instalaram indústrias pesadas e muito poluidoras, bairros suburbanos e cidades dormitório. Lisboa esquece-se da margem sul, só admirada ao longe, nas suas linhas de casario junto à água brilhando à noite ou pintada pelos pintores da cidade. No entanto, do lado de lá do Tejo há muita beleza por descobrir. Escolhemos uma duna bem conhecida de quem veleja no Tejo: a Ponta dos Corvos, que é um miradouro original donde se vê Lisboa a partir do meio do estuário.

A sua beleza natural contrasta com os despojos industriais da Siderurgia do Seixal, da Quimigal do Barreiro e da Lisnave de Almada que a envolvem. Quem descobre aquela duna, que mal se vê de Lisboa, não acredita que ali, tão discreto e tão próximo (a 7km do Terreiro do Paço) possa existir um paraíso natural. Das dunas que o vento esculpiu numa curvatura suave se desenrola uma praia de areia branca donde se vêem, para além do Tejo, as colinas de Lisboa através dos troncos maciços dos pinheiros mansos.

O contraste realça a beleza da Ponta dos Corvos, inalterada apesar de tudo o que de artificial e brutal se instalou à sua roda. Foi Dostoievski quem,n’ O Idiota, lembrou que “a beleza salvará o mundo” e François Cheng, nas suas Cinco Meditações Sobre a Beleza, escreve: “(…) Ela existe, sem que numa primeira abordagem, de forma alguma a sua necessidade pareça evidente. Ela está, de forma omnipresente, insistente, penetrante, dando a impressão de que é supérflua. Aí reside o seu mistério (…)”.

Quando entramos na pequena península da Ponta dos Corvos, a natureza surpreende-nos. De um lado, a praia e a vista para Lisboa e do outro, virado para a serra da Arrábida, encontramo-nos num sapal de vegetação rasteira donde se alimentam mil espécies que, transformando as lamas poluídas em nutrientes, contribuem para uma eficiente cadeia alimentar e tornam o estuário um habitat riquíssimo onde nidificam e vivem muitas aves. Abandonada a si própria, a Ponta dos Corvos agiu como um ecologista sábio e paciente.

Desde a Idade Média que ali se instalaram quatro moinhos de maré, e do início do século XX restam as ruínas de duas grandes fábricas de seca do bacalhau (a Sociedade Nacional de Pesca – SNP, e a Companhia de Pesca Atlântica – CPA), que ligavam o estuário do Tejo aos mares da Noruega. As ruínas das estruturas que suportavam os tabuleiros parecem hoje instalações de artistas que ali tivessem deixado peças de Land Art aumentando o encanto da Ponta dos Corvos, uma área tutelada pelo Ministério da Defesa.

“O reconhecimento deste lugar esquecido, da sua beleza e potencial de reabilitação como local de recreio no século XXI, seria um primeiro passo para fechar o ciclo industrial e poluidor do século XX”, são as conclusões do “Método das Preferências Visuais” LINK, no qual participaram os alunos e docentes do Programa Doutoral em Arquitectura Paisagista e Ecologia Urbana (in ArchiNews, Castel-Branco, Soares,A.L., Arsénio,P., et al, Lisboa, 2011, p.40).

Ponta dos Corvos
38º 38’ 57,98’’N, 09º 06’ 09,84’’W
Seixal
Visitável

São 20 os miradouros destacados nesta série que vão levar o leitor a visitar, em Portugal continental, um “lugar elevado de onde se avista um horizonte largo”. São o nosso património das vistas:
1. Penedo Durão
2. Nossa Sr.ª da Saúde
3. Forte de Almeida
4. Fragão do Corvo
5. Covão da Ametade
6. Castelo de Montemor-o-Velho
7. Miradouro da Bandeira
8. São Pedro de Moel
9. Sítio da Nazaré
10. Pedreira do Galinha
11. Outeiro de São Pedro
12. Forte de Paimogo
13. Ponta dos Corvos
Fonte: Margarida Paes / Jornal Publico