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Em Matosinhos, muitos já não se perdem em marés por este peixe

Já diz o ditado: se as gaivotas estão em terra, há tempestade no mar. E de lá a sardinha vem pouca e magra. Vem “seca”, como dizem por Matosinhos, numa terra em que, desde madrugada, é o mar e o que dele vem que move as gentes.

Junto à costa nortenha, “não há nada como o costume, enquanto noutros sítios não falta sardinha.” Joaquim Amaral, comprador habitual na lota, sabe-o pela experiência que leva em compras no leilão da Docapesca, em Matosinhos. Fala de Sines e Portimão, onde a sardinha se vende “como deve ser”. Mas isto é culpa do mar e todos concordam.

Ainda assim, o PÚBLICO veio num dia mau, de um ano mau. O encarregado da lota da sardinha, Inocêncio Gabriel, não esquece os melhores dias, em que o sol aquecia as águas e melhorava a pesca: “Ainda ontem saíram daqui mil cabazes de sardinha”, mas era pequena. “Estavam 25 peças num quilo, o que é muita por quilo.” Na melhor época de pesca, 11 ou 12 peças chegam para atingir o quilo.

Os cabazes no dia anterior foram saindo do leilão entre os 11,5 e os 12,5 euros, indica. Às dez da manhã de quarta-feira, os cabazes já eram comprados a cerca de 15 euros. Preço que sobe em virtude da pouca oferta e do tamanho reduzido das sardinhas.

Os trocos da sardinha, do mar à lota

Na lota de primeira venda, Palmira só se vê a contar os trocos: “Isto está muito mal. Ninguém quer comprar”. A culpa diz que é da crise ou do mar, “que não dá peixes”. Nem Palmira o sabe, nem Luisinha, que tem uma banca à sua frente na lota da Docapesca.

Por estes dias, a sardinha que vem do mar é pouco maior do que os dedos de Luisinha. E, como se o tamanho não bastasse para afastar os compradores, “as pessoas provaram e a sardinha não presta”. Por isso o negócio destes homens e mulheres, que vivem do que vem do mar, tem “dias muito maus”.

As palavras de Luisinha são repetidas ao longo da lota. Agora, o que vem e se vende é a cavala. Uma moda que pode substituir a sardinha? “Não, as pessoas não compram tanto. E não rende tanto, porque é mais barata”, constata Rogério, umas bancas à frente.

Maria de Jesus era, às 7h, das poucas com sardinha na sua banca. “Mas olhe que estou aqui desde as 3h e não se vende nada”, conta. Há 25 anos no ofício, queixa-se que este ano é dos piores.

Alberto está a sair da lota. Vai pôr-se a caminho de Felgueiras, para vender o peixe que acabou de comprar. “Deveria ter aqui o dobro do peixe”, mas, neste mau ano, não se surpreende: agora haver sardinhas “é como haver uvas nesta altura do ano”. Vêm poucas, “secas, magrinhas, sem gordura nenhuma”, atesta.

Na lota, pediam 20 euros pela caixa que comprou. Acabou por trazê-la a 15. “Como nós [os compradores] não queremos, as peixeiras lá dentro vão baixando”, diz. No ano passado, por altura dos santos populares, vendia estas sardinhas a um euro cada uma. “A quanto a vendo hoje? Nem lhe digo”. 2015 foi um bom ano, mas este ano “a sardinha vai ser magra para os santos”.

Com o São João ao virar da esquina, quem está na lota acredita que a sardinha não tarda. “Os santos ainda não chegaram, ela há-de vir”, afirma Rogério, também peixeiro na lota. Há quem ache que é a fé a falar mais alto ou que se acredita no que deu “há dias, na televisão”: a partir de dia 15 as coisas hão-de melhorar. Até lá vão tendo a cavala, para dar trabalho a pescadores e peixeiros.

A falta que a “nortadinha” faz

Para lá dos postos de venda, os pescadores deixaram há muito de acreditar que a sardinha vai crescer em quinze dias. Pesa-lhes mais “um dia menos mau” em que trocaram novamente a apanha da sardinha pela cavala. Já tem sido assim nos últimos anos, mas é cada vez mais frequente David Marcos, contramestre do Orlando Eugénio, ir para o mar à pesca de cavala, que “vem mais e rende mais”. Já não se perde em marés pela sardinha.

A sardinha lá há-de crescer. “Falta-lhe a nortadinha”, é a teoria do companheiro de David, que não quer dar o nome, mas não poupa explicações sobre o assunto. A nortada é um vento marítimo, típico dos meses de verão, que arrasta as águas costeiras para o largo e traz à superfície águas profundas, mais frias e agitadas. Ascendem grandes quantidades de nutrientes, que alimentam os cardumes. Este ano, este vento faz-lhes falta para “engordar a sardinha.”

Acabaram por chegar cinco barcos, já passava das 8h30. O Damata trazia “só isco para caldeirada”, queixava-se um pescador. Os mais pessimistas dizem o mesmo: a sardinha deste dia pouco mais dá do que para isco e conservas. “Quando o tempo está assim, há sempre muito pouco”, explica Samora, um dos pescadores do Damata. A sardinha sai mais cara, mas sai pouca, o que a dividir por todos “não dá nada”. O pescador, há seis anos nestas lides, viu muitos a abandonarem a profissão de vez. Por Matosinhos também não tenciona ficar por muito mais tempo: “Só estou à espera para ir para um barco para Espanha”.

São os custos de uma instabilidade que sai cara à profissão e ao mercado. “Há dias em que saem para o mar e não trazem nada. Mas a despesa não pára”. Assim fala o encarregado da lota sobre um negócio com poucas garantias, sem vínculo de trabalho.

Samora recebe, em média, 9 a 10 euros pelo trabalho, “quando o dia corre bem.” Quem se faz ao mar, “lá vai recebendo um subsídio do Estado” quando vende pouco. Os pescadores chamam-lhe a retirada, um subsídio que rende a Samora “no máximo, 11 euros” por dia.

As quotas impostas pelo Governo, de 166 cabazes para as embarcações grandes e 111 cabazes para as mais pequenas, nem têm sido um problema. Havendo poucas sardinhas, há companhas a entregar o pescado uns aos outros para todos chegarem à lota de barco cheio.

Todos lembram os melhores dias, como aquele no ano passado em que venderam 50 cabazes a 400 euros cada um. Nesta época de santos populares era normal venderem cada cabaz entre os 80 a 100 euros. Oxalá se repitam estes valores, esperam. “Não quer dizer que daqui a três meses o peixe não cresça, mas eles precisam de ganhar dinheiro já”, remata o encarregado da lota de sardinha. Lá para Setembro, esperam-se melhores águas.

Texto editado por Raquel Almeida Correia

Fonte: Publico