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Candidatura de aldeia de Caneiras a Património Nacional avança neste Verão

O Instituto Politécnico de Santarém (IPS) vai entregar brevemente à Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC), um processo de candidatura da aldeia de pescadores avieiros das Caneiras a Património Imaterial Nacional. Trata-se do primeiro passo formal de um objectivo mais lato de preservação da cultura dos avieiros – uma comunidade que se desenvolveu nos últimos cem anos com a fixação de famílias de pescadores oriundos da zona de Vieira de Leiria nas bacias do Tejo e do Sado.

Estas populações, que inicialmente viveram algum isolamento, constituíram dezenas de aldeias (resta cerca de uma dúzia, porque algumas foram entretanto abandonadas e outras substituídas por novos bairros de alvenaria) e desenvolveram uma cultura muito própria, que se distingue em variadíssimos aspectos, desde os trajes à oralidade, passando pelos barcos, pelas casas típicas, gastronomia, artesanato, música e pela própria religiosidade.

Também por isso, há cerca de dez anos surgiu a ideia de candidatar a cultura avieira a património nacional. Foi, posteriormente, constituída uma equipa coordenadora do projecto, que funciona no âmbito do IPS. Entretanto os promotores acabaram por concluir que não seria possível candidatar a “cultura avieira” no seu todo e que, para ir ao encontro da legislação em vigor, teriam que definir “pontos focais” de candidatura.

Foi assim que foi escolhida a aldeia das Caneiras, no concelho de Santarém, para esta primeira candidatura, tendo em conta que se trata de uma das que melhor preservam as características das aldeias avieiras. Nos próximos anos seguir-se-ão outras candidaturas de outros aglomerados.

Tendo em conta as exigências legais foi contratada uma empresa da especialidade para elaborar centenas de fichas de inventário relativas aos temas “o barco”, “a casa” e “as artes de pesca” nas Caneiras. Concluído este trabalho, ainda neste Verão, o Politécnico de Santarém deverá apresentar a candidatura formal à DGPC.

“Tratou-se de escolher uma aldeia focal, as Caneiras, e seleccionar um conjunto de ícones que são caracterizados em fichas de inventário”, explicou João Serrano, coordenador do Projecto de Candidatura da Cultura Avieira a Património Nacional. “Depois da entrega destas fichas devidamente preenchidas, com centenas de itens, o IPS fará chegar à DGPC a candidatura a Património Imaterial Nacional.” Segundo João Serrano, para o futuro estão previstos processos semelhantes noutras aldeias avieiras, para as candidatar também a Património Nacional.

“As fichas de candidatura são muito rigorosas, há muita exigência da parte da DGPC. Em relação às Caneiras, por exemplo, há uma equipa de antropólogos que está a fazer um levantamento exaustivo em filme, entrevistas e em fotografia dos barcos, casas e artes de pesca”, concluiu o coordenador da candidatura.

Em paralelo com a candidatura a Património Nacional foi desenvolvido um outro processo que tinha em vista a dinamização económica do Tejo e a criação da Rota Turística dos Avieiros do Tejo e Sado, baseada em parte nas antigas aldeias avieiras. O projecto foi aprovado no âmbito do Provere (programa comunitário de valorização económica dos recursos endógenos) e ficou a saber-se, em 2010, que poderiam ser candidatadas a fundos comunitários acções concretas até um montante próximo dos 10 milhões de euros.

Os projectos foram feitos e apresentados, mas passados cinco anos nunca houve dinheiro para os apoiar. João Serrano lamenta a atitude de alguns responsáveis da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale doTejo (CCDR). “Andámos três anos a trabalhar arduamente para concretizar uma estratégia de eficiência colectiva e, no final, viemos a saber que os fundos tinham sido canalizados para outros sítios”, lamenta. “Criaram-se expectativas, criaram-se projectos muitos bons”, acrescenta.

Muita energia desperdiçada
João Serrano diz que percorreu intensamente o Tejo, durante estes três anos, procurando impulsionar o projecto. Ele e a sua equipa participaram em 1103 reuniões para juntar as comunidades e estimular os empresários. “Houve empresários que apresentaram projectos lindíssimos, mas o que é certo é que nenhum dos projectos individuais foi aprovado”, afirma. Foram elaborados projectos para construir hóteis palafíticos (com estacas de suporte segundo a tradição avieira), recuperar aldeias de pescadores, adquirir embarcações para passeios no rio, ou apoiar ranchos folclóricos, mas nenhum foi aprovado.

“Dou o exemplo de um investidor que queria, e quer, construir um hotel palafítico em Salvaterra de Magos. Deslocámo-nos várias vezes a Lisboa, andámos a bater à porta de vários directores da CCDR. Na última vez que estivemos lá, um dos directores disse-nos que não aprovava o projecto porque não gostava. Não havia questões técnicas a apontar, mas não gostava”, conta o coordenador da candidatura da Cultura Avieira.

Muito recentemente, acrescenta, soube que “afinal o Provere, criado para apoiar estas iniciativas de desenvolvimento regional, nunca teve dinheiro, estava vazio”. João Serrano diz que não lhe compete averiguar para onde é que foram canalizados esses fundos, mas sublinha: “Deviam estar ali para o desenvolvimento regional, para apoiar todas estas entidades. Foi um grande esforço, um grande investimento, uma grande quantidade de energia que foi completamente desperdiçada.”

A expectativa que a equipa mantém prende-se com a possibilidade de o novo quadro comunitário de apoio enquadrar estes projectos de outra forma e de o trabalho desenvolvido pelo consórcio liderado pelo IPS ser devidamente apoiado. “Nenhum dos projectos perdeu oportunidade. Estão todos actuais. Acredito que neste novo quadro de apoio haja bom-senso e que estes projectos sejam reactivados”, frisa João Serrano. “ Agora as pessoas têm que ser acarinhadas porque estão muito desanimadas”, conclui, considerando que a Rota Turística dos Avieiros do Tejo e Sado “é um projecto integrado de desenvolvimento regional que merece ser apoiado”.

Fonte: Publico